
Foto: Roberto Filho e Alex Palarea /AgNews
Eu decidi que não dava pra deixar de ver Chico Buarque.
Meses antes do show, meses antes da venda de ingressos, quando ainda especulavam a vinda da turnê para a capital baiana, estava decidido. Chega de ídolos morrendo sem me dar chance de vê-los ao vivo. “Chico, eu vou ver.”
E eu vi. Vi de perto. Acordei às 4 da manhã, céu estrelado ainda, só para pegar senha. Zanzei com minha namorada até o meio dia quando abriram as bilheterias (todas ao mesmo tempo, reza a lenda). Caos na fila, confusão com as senhas, a quem serve tanta desorganização? É a máfia dos cambistas diz a fã de Chico do meu lado. É a máfia dos próprios funcionários diz um outro. Nós vamos ver Chico! diz Monique, minha namorada.
Decidimos ainda na fila que melhor mesmo é o primeiro dia. Não dá pra aguentar todo mundo comentando o show antes de você. Quarta-feira, meio de semana, ok. “Moça, abre o mapa do dia 9” “Tem fileira A!” “Pega na B que é mais no centro!” E foi só por a mão no ingresso que Chico já estava perdoado pela noite mal dormida, pelo transtorno da fila, pela mordida voraz no meu salário de estagiário.
Se eu fosse Chico e fizesse uma turnê no Brasil, onde o direito à meia-entrada é quase universal, eu também ia cobrar isso.
Dia 9, encontro o Teatro Castro Alves com uma bela iluminação azul. Da cor dos olhos de Chico. Paro o carro no lugar habitual, e o habitual flanelinha me cobra os habituais 10 conto. No teatro, o público era, na maioria, contemporâneo de Chico. Uns mais jovens aqui, outros muito jovens acolá, mas em geral um público maduro.
Ocupamos nossos lugares cedo, minha namorada e eu. Uma olhada rápida para trás revelou um teatro lotado, poucos rostos conhecidos. Nervoso com a proximidade do momento, faço algum comentário bobo sobre o palco. A campainha toca. Uma, duas, três vezes. Os músicos entram, eu aplaudo. A produção se atrapalha com as projeções de publicidade. Faz-se barulho, faz-se silêncio. E aí começa.
***
Quando os músicos já levavam os primeiros acordes de “O velho Francisco” ele entrou. E estava velho aquele Francisco. Entrou com a confiança dos tímidos, tão humano, com rugas até. Descia do altar que lhe criei, sem perder por um minuto sequer a aura. Sorri da auto ironia na escolha desta canção para abrir o show e, em êxtase, cantei junto. Chico parecia uma miragem, tão próximo. Impossível começar melhor.
“De volta ao samba” me tirou a dúvida se o momento era mesmo real. Ouvi dos próprios lábios de Chico:
Cansou de esperar por mim
Acenda o refletor
Apure o tamborim
Aqui é o meu lugar
Eu vim
Quando começou a cantar o repertório de seu último CD, com “Querido Diário” e “Rubato”, achei que ele ia tocá-lo na íntegra. Não tenho como escrever como foi boa a surpresa de ouvir “Choro Bandido” ali no meio das novas canções. A execução foi perfeita.
Prestei atenção, pela primeira vez, na banda. Músicos talentosíssimos. O contrabaixista Jorge Helder brilhou em “Choro Bandido”, brilhou o show inteiro. Marcelo Bernardes nos instrumentos de sopro e o pianista João Rebouças tinham temperamento parecido na banda – sempre muito precisos, se destacando nos detalhes. Bia Paes Leme (teclados) me surpreendeu com a voz! Educadíssima, sempre no lugar, roubou a cena em “Se eu soubesse”. Chico Batera estava inspirado na percussão. Quem não o viu completamente imerso em seu atabaque no fechamento do show com “Sinhá”, perdeu a oportunidade de ver um músico em puro transe. O maestro e violonista Luiz Cláudio Ramos é uma pérola. Sua performance no violão quase flamenco arranjado em “Geni e o Zeppelin” eu vou guardar na memória. E tem o Wilson das Neves…
Quando abandonou a bateria para cantar, ao lado de Chico, “Sou Eu” e “Tereza da Praia” o baterista criou um grande momento e mudou a atmosfera do show. Soltou também a voz da platéia que passou a interagir mais livremente com a apresentação. Voaram os primeiros gritos de “Lindo”, “Gostoso” e até um “Delício” passou pelos meus ouvidos antes de chegar nos de Chico.
As mulheres do teatro, acho que todas elas, cantaram “Terezinha” e “O meu amor”. “Cálice”, com letra de Criolo também causou grande comoção. Em “Anos Dourados” Chico desafinou, faltou voz. Mas voltou ao tom com tanta graça que eu nem tenho mais tanta certeza se aconteceu mesmo.
Vi algumas críticas desta primeira apresentação em alguns sites, todas muito ruins. Ignoraram tudo que aconteceu de importante no show. De bom e de ruim. Até acusaram os aplausos ao fim de cada canção de serem “mecânicos”. Não confio num crítico cujas mãos que escrevem, não responderam involuntariamente à “Valsa Brasileira” com palmas compridas.
O som meio abafado na primeira parte da apresentação não está em nenhuma crítica, estranho. Os cenários do show são belíssimos, dialogam em voz alta com as canções.
O show definitivamente não peca por falta de unidade. As músicas parecem chamar-se umas às outras. Não é um show conversado, Chico interage com o público quase que exclusivamente pela música, como deve ser, o que não o impediu de um contato caloroso no bis. Passeou pelo palco tocando a mão de muitos fãs como um rockstar, e com muito bom humor, ameaçou pular para a multidão que correu para a frente do palco.
O show é uma experiência de dessacralização de Chico para tornar a sacralizá-lo. No início você vê o homem, não o mito. No fim, o mito só é mito por ser homem. Por ter rugas, por envelhecer, por perder um pouco a voz, por viver o cotidiano (Porque não cantou essa, Chico?) sem se desgarrar da poesia.
Eu vi Chico Buarque. Vi de perto. E foi incrível.